Cara e crachá no Rio (pt.4)
Artistas na areia de Copa - véspera do grande show

O clima de sexta-feira era contagiante e amistoso. Muita gente pela praia, sol forte, turistas de todos os cantos do planeta, maioria já com a pele queimada cor-de-rosa, tentando se interagir com os ambulantes preparados para a muvuca do dia seguinte. Nada parecia com o terrorismo pregado por alguns cariocas, que alertavam sobre possíveis brigas, roubos e violência no local do mega-evento. Papo meio chato, como se não bastasse a propaganda negativa da cidade que é oferecida diariamente pela imprensa.
No meio da Avenida, um cinturão de fotógrafos com suas pesadas teleobjetivas não tiravam o foco da janela do Copacabana Palace. Todos queriam o flagrante de um aceno, uma aparição qualquer de alguém da banda. Rapidamente descobri que a bendita credencial estava sendo distribuída na sobreloja do Hotel Excelsior, espaço alugado pela agência de comunicação.
Ana Paula trabalhava na assessoria. Era o único nome que lembrava para tentar uma nova negociação. Tinha feito contato com ela um mês antes para credenciar minha revista, mas acabaram negando o pedido. Acreditava que um corpo a corpo com a jornalista, quando o que vale é uma boa lábia e olhos nos olhos, poderiam talvez reverter aquela situação desfavorável.
Eu representava a Revista Bagagem, projeto de faculdade que teve apenas uma edição impressa. A revista de turismo abordava principalmente destinos mochileiros e cultura backpacker. Minha proposta de trabalho era fazer a cobertura do show dos Rolling Stones focando as peregrinações dos amantes do rock por todo o país. A Woodstock tupiniquim! Andarilhos carregando bandeiras estampadas com a língua de fora. Caroneiros do rock e suas mochilas cargueiras fedidas. Gerações mais velhas, cruzando o Rio com suas motocicletas customizadas. Traficantes disfarçados de hippies modernos, trazendo combustível para milhares de fãs que atravessavam a noite sem dormir, em loucas excursões movidas a orgias e bebedeiras.
Na sobreloja uma confusão para pegar as credenciais. Jornalistas de diversas nacionalidades estavam presentes. Apresentei-me a Ana Paula e disse que estava ali para trabalhar, independente da credencial. Mas se me ajudasse, poderia fazer um trabalho ainda melhor. Atormentada pela correria do movimento na sala, Ana mandou eu aguardar um pouco. Quando a sala deu uma esvaziada, entrou um jornalista argentino, querendo seu crachá.
- Desculpe amigo, teu nome não está na lista. Quem limitou as credenciais foi a produção internacional da banda. Lamento – disse o chefe da Ana, um cara de pouca conversa que já foi despachando o muchacho.
O gringo parecia ter uns 45 anos, cabelo gorduroso por causa do suor e usava uma ridícula camisa floral junto com bermuda curta. Tentou fazer um escândalo, mas foi alertado que poderia levar um mata-leão do segurança, parado ali na porta. O clima ficou tenso. Ana Paula chegou pra mim e disse para voltar no dia seguinte, às 15h. “Se sobrar uma credencial te dou, mas não posso garantir. Mais que isso não posso fazer por você”.
Resmunguei alguma coisa, me despedi dela e voltei para praia. Joguei minhas roupas num quiosque de bebidas e mergulhei no mar, afogando as últimas esperanças de trampar na área vip do show. (continua pt.5)
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Escrito por Jeferson Jess �s 14h49
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