Domingueira em Campo Magro

Domingo de Sol em Curitiba. Ultimamente estou acordando além do meio dia nos finais de semana. Fruto de porres cada vez maiores e das baladas insossas que ando me envolvendo. Metade do dia perdido e eu nem conseguia olhar pra uma lata de cerveja. Pensei em andar de bike, mas com meu preparo físico debilitado e a Caloi sem freio, preferi não arriscar. Precisava de algo mais tranqüilo, purificador e espiritual. Um chá preto talvez. Minhas opções eram confusas e estranhas. Precisava sair de casa. Estava quase indo ver que tipo de ritual rolava na igreja Bola de Neve, mas preferi algo mais próximo da natureza. Peguei o carro e segui em direção a Campo Magro, região metropolitana de Curitiba, com intenção de ir até o distrito de Bateias, onde diz a lenda existir uma filial do Saint Daime no Paraná. Não tinha pretensões de tomar o chá mágico nesse dia, queria mesmo era participar de alguma reunião e conversar com os padrinhos da tradicional seita.

Campo Magro é uma cidadezinha rural que nem parece estar tão próximo da capital. A região possui um terreno muito irregular e montanhoso, protegida boa parte por ser área de manancial que forma a represa do Passaúna, evitando assim que os loteamentos suburbanos dominassem a cidade. Sem grandes atrativos, passei reto pelo centro num piscar de olhos até identificar uma placa convidando o motorista para conhecer a Rota do Turismo Rural. Fui convencido pelo asfalto inicial da Rota, que durou míseros 500 metros. Sobrou pro meu Celtinha que levantava poeira sem eu ter a mínima idéia onde a estrada poderia me levar.
Toda curiosidade tem suas recompensas. Meu prêmio foi uma placa cinco quilômetros adiante, indicando a direção e existência de umas misteriosas Cachoeiras Gêmeas. Ao fundo da paisagem campeira, chamava atenção o majestoso Morro da Palha, local predileto de decolagem para os amantes do vôo livre. O tempo aberto sem nuvens já permitia visualizar umas pequenas pipas ao redor do monte. A essa altura já tinha desistido de visitar a vila de Bateias e a galera mística do Daime. Mesmo sem grandes expectativas, decidi desvendar as cachoeiras, subir até o cume do Morro da Palha e quem sabe: saltar!

Mais três quilômetros de chão, ressurge a placa derradeira sinalizando o local das cachus a poucos metros. Na chegada, alguns carros farofas no estacionamento, mas ninguém capaz de me dizer se a trilha de acesso era extensa ou pesada. Infiltrei-me na desconhecida picada até encontrar uma placa surpreendente: Cachoeiras Gêmeas (105 metros) e Cascata do Macaco (90 metros). Imaginei-me debaixo de cachoeiras gigantes no meio de cânions profundos e exuberantes. Mas ao conferir primeiramente a Cascata do Macaco, não consegui ver mais que 15 metros. Como era cascata, outra parte dela devia estar mais acima, escondida na minha linha de visão. Parti para as Gêmeas e lá percebi que os metros anunciados eram a distância até as cachus e não a altura delas.

Despedi-me da farofada e pisei fundo até o Morro da Palha, com a intenção de chegar ao topo antes do pôr-do-sol. Já no começo da pirambeira, notei que meu Celtinha não era apropriado para encarar os atoleiros da estrada. Abandonei a barca e fui a pé, desanimado com a situação. Logo em seguida vi uma Pajeiro encalhada com as duas rodas laterais dentro de uma vala. O motorista tiozão de prédio mal sabia ligar a tração nas quatros rodas, o que explicou a cagada do dia. Fiquei de bituca ali perto esperando uma improvável carona, pois a subida era grande e penosa. A sorte veio rapidamente com um jipão antigo lotado de gente. Não quis nem saber e me espremi com a galera no banco de trás até uma certa altura, quando o jipe resolveu voltar. Só me restou botar sebo nas canelas e em 20 minutinhos de pernada alcançar o topo do Morro da Palha, com seus 1.190 metros.

Lá conheci o Paulinho, que trocou a vida na cidade para morar próximo ao pé do Morro, dedicando-se a sua paixão: o vôo livre. O barato dele era pousar no jardim de casa, mas nesse dia ele iria descer ao lado do bar e comemorar com os amigos em terra. Muita gente observando também a formatura da Ana Clara, pronta para realizar seu primeiro vôo solo. Após um pacote inicial por causa da força do vento, ela ergueu o velame corretamente e seguiu direto para área de pouso. Já os outros pilotos faziam questão de ficar ao redor do Morro, aproveitando o vento rebatido para cima e curtindo um belo pôr-do-sol. Só não saltei porque não havia equipamento para vôo duplo no dia, sem falar que o instrutor responsável tava mais louco que o Lobão!
Escrito por Jeferson Jess �s 00h37
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