Jericoacoara - CE

Como é bom conhecer lugares longe do circuito turístico tradicional. Na esquecida praia de Almofala, a tranqüilidade do pequeno povoado de pescadores permanece inalterada, sem a interferência dos ônibus de excursões, do turismo de massa e suas conseqüências desastrosas para o meio ambiente. Na falta de grandes atrativos naturais, Almofala destaca-se por valores e virtudes só encontrados nas comunidades mais íntegras, afastadas das influências externas, como a televisão e o próprio turismo.
Um grande exemplo é a facilidade que tive de acampar dentro da Pousada da Lúcia, abrindo-me as portas sem nenhum constrangimento, realçando a importância e o valor da palavra confiança para os moradores locais. Mais impressionante foi a hospitalidade de Dona Cleusa quando passeava pela vila, até perguntar a ela se existia alguma padaria por perto. Acabei dentro de sua casa, tomando um delicioso café que acabara de fazer, como se eu fosse da família. Dona Cleusa costuma receber viajantes do todos os cantos, deixando-os acampar no pátio ou dormir nas redes da varanda, pelo simples fato de gostar de ajudar as pessoas. Situações e figuras descobertas pela expedição que se tornam tesouros e recompensas para uma vida toda.
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Depois de passar pelas cidades de Acaraú e Cruz, consegui uma “carona turística” direto para Jericoacoara. O motorista estava cobrando o frete até lá, mas por causa do projeto, abriu a mão deixando eu embarcar por um preço de custo. Em Jijoca, trocamos de caminhonete para enfrentar o areião das dunas pelo caminho, que mesmo assim atolou num trecho. Hora de todo mundo suar a camisa e empurrar o carro. Em pouco tempo estávamos na estrada novamente, chegando em Jeri sem mais problemas.
Vilarejo badalado por sua beleza descomunal, sendo classificada como uma das 10 praias mais lindas do mundo. As ruas de areia de Jeri guardam várias pousadas e restaurantes, um tanto glamourizados pela rusticidade do lugar. Em compensação, a região pertence ao Parque Nacional de Jericoacoara, que restringe o crescimento desordenado da vila por ser uma área de proteção ambiental.

A vista mais famosa de Jeri é a Duna do Pôr-do-Sol, colada no vilarejo, com 30 metros de altura onde todo mundo sobe no fim da tarde para contemplar o visual. Os mais aventureiros se arriscam nas manobras do sandboard, esporte predileto dos nativos. Do outro lado da vila, trilhas pelo alto dos costões revelam uma paisagem mais árdua, cheias pedras e vegetação seca. No mar, os afloramentos rochosos recebem o nome de serrotes, sendo a Pedra Furada o mais conhecido deles. No mês de julho, o sol se põe exatamente no vão da pedra, formando um bonito espetáculo.
Outro destaque de Jericoacoara é a agitada noite, com programação variada. Barraquinhas de frutas preparam drinks exóticos na hora, animando a galera antes da música começar. Depois de três dias de muita curtição, fui obrigado a sair da vila por não ter mais dinheiro em espécie na carteira (na vila só há um caixa do Banco do Brasil). Partir daí começava um dos maiores perrengues da expedição, atrás de uma agência Itaú, onde a mais próxima era a 450 km de distância...
Escrito por Jeferson Jess às 16h02
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Maratona de perrengues

Deixar Lagoinha com destino a paradisíaca Jericoacoara num único dia seria quase impossível devido a distância e dificuldade de acesso das praias da região. Para não ficar perdido na noite em qualquer lugar, escolhi a praia de Almofala (CE) como base para alcançar Jeri no próximo dia. Curiosamente encontrei em Lagoinha o baterista da banda Fábio Mancha e a Massa Sonora (rock alternativo que conferi em Fortaleza) junto com sua namorada gatinha e um amigo local. Foram eles que indicaram a praia de Almofala, onde a Igreja Nossa Senhora da Conceição ficou soterrada por muitos anos até que a duna mudou-se de lugar. Chegar à cidade exigiu da expedição muita disposição e sorte para enfrentar uma maratona de caronas, de todos os tipos e situações. Preste atenção para não perder a conta:
1ª) Deixei a praia de Lagoinha pegando carona num carro de lotação até Paraipaba, cidade que administra o litoral da região. Total percorrido: 12 km.
2ª) Com um carro velho de um nativo, consegui chegar no trevo da CE-085, em bom estado e pouco movimentada, conhecida como Estruturante. Carona curta: 4 km.
3ª) Depois de meia hora no trevo, encosta a caminhonete de Seu Francisco, que levava a mãe para sua casa na vila de Canaã, uma praia de pescadores. Desci no entroncamento para a cidade de Barrento. Percurso: 23 km.
4ª) Mais meia hora de espera até uma Ranger cabine dupla parar. No volante estava a figura de Mazim, prefeito de Trairi, junto com três “assessores”. Almocei na faixa por conta deles, num restaurante de beira de estrada, mas fui obrigado a conhecer todos os vilarejos pelo caminho, onde o prefeito fazia questão de visitar e cumprimentar seu eleitorado. Despacharam-me na movimentada e quente cidade de Itapipoca. Trecho percorrido: 60 km.
5ª) Em Itapipoca tive que bolar uma plaquinha no meu caderno de desenho para alcançar a próxima parada: cidade de Almontada. O sol estava forte demais e por isso faltaram-me forças para caminhar até a saída do município. No meio da galera, na área urbana mesmo, um caminhãozinho reduziu a velocidade e mandou eu pular na caçamba em movimento. Na vila de Almontada, descubro que o motorista seguiria viagem em frente, quase até Itarema, já próxima de Almofala. Desci na porta de um bar, no meio do nada! Percurso: 62 km.
6ª) Estava na CE-434, uma rodovia praticamente deserta, pois não passava uma alma viva nela. Deixei minha mochila no meio do asfalto e fui bater papo com o dono do boteco até um motoqueiro perdido encostar e perguntar: “O centro de Itarema está muito longe?”. Amigo, se me der uma carona na garupa, te mostro o caminho certo, respondi. Lá fomos nós por mais 25 km. Aff...
7ª) De Itarema faltava apenas 7 km de estrada de chão até Almofala. Apesar da pouca distância, o transporte público não funcionava na cidade. Dei um tempo no centro para conversar com a população se alguém costumava ir à praia naquele horário. Marquei território e botei o pé na estrada, caminhando na direção do meu destino. Em poucos instantes, a manobra surtiu efeito, parando um carro no meu lado, sem eu ter feito sinal de carona. “É você que quer ir a Almofala? Estou indo agora pra lá”. Olhei para trás e vi o pessoal do centro fazendo gesto de positivo. Tinham avisado um conhecido de Almofala que passava naquele momento sobre meu perrengue. Valeu cambada! Cheguei na praia ainda de dia para curtir o pôr-do-sol e tomar uma cerveja.
Escrito por Jeferson Jess às 08h57
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Conexão Cumbuco - Lagoinha

Com muita tristeza e resistência deixei a cidade de Fortaleza num domingo ensolarado, ainda sofrendo as conseqüências das noitadas anteriores. Segui num demorado ônibus para Cumbuco, praia bacana mas com muita gente e vários buggys circulando na areia e ameaçando os banhistas. Desta praia começava o desafio do dia: descolar carona para o bonito litoral de Lagoinha.
Por causa da minha moleza matinal, tive que almoçar em Cumbuco antes de cair na estrada, tão tarde era. Isso alterou a ordem natural das coisas. A tarde, quase todos os veículos seguiam em direção a Fortaleza, voltando das praias. No sentido contrário, era raro ver algum carro passando. Com muita persistência, caronas curtas me levaram até um posto da Polícia Rodoviária na CE-085.
Apesar do pouco movimento na pista, a carona seria apenas uma questão de tempo. Engano meu. Domingo e feriados são dias proibidos para pegar carona. Os caminhões não circulam e os carros que passam são lotados de famílias e farofeiros. Fiquei plantado no acostamento até escurecer, observando a ignorância e o despreparo dos guardinhas rodoviários, que se recusavam a sair da sombra para trabalhar.
No meio da tarde passou um tiozinho de bicicleta vendendo tapioca pronta, embalada em saquinhos plásticos. Cada guarda pegou duas, arremessando o lixo na natureza, de maneira bruta e irracional. Um dos copinhos plásticos foi arrastado no asfalto pelo vento, ecoando um barulho que latejava o descaso com o meio ambiente. Cenas corriqueiras do cotidiano nordestino, praticamente em todos os lugares, até nos paraísos “eco” turísticos. Fome zero para o povo. Educação e consciência também!
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Só cheguei em Lagoinha porque um bonde teve coragem de parar à noite no trevo de Paracuru e me resgatar. Na vila, convenci a dona Nazaré, da Pousada Lagoinha, para acampar em seu quintal. Hospitaleira, ainda me ofereceu um arregado café da manhã no dia seguinte, dando forças para encarar mais um dia de expedição.
Legenda: Praia de Lagoinha, com suas dunas avermelhadas, trechos desertos e lagoas de água doce. A pequena vila de pescadores sofre com os ônibus das agências de turismo, que invadem a praia todos os dias. Lugar muito bonito mas que precisa ser melhor administrado e controlado, antes que seja tarde demais.
Serviço:
Pousada Lagoinha - Paraibaba – CE
Fone: (85) 3363-5142 (comunitário) – 9154-6562 (Rubens)
Escrito por Jeferson Jess às 13h57
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