Devaneios de Ilha Grande

Ficar em Curitiba, sem um trampo fixo, vendo a pouca grana que resta evaporar, beira a insensatez nesta terra gelada e reprimida. Aproveitei o tempo disponível para botar em prática um antigo sonho que, por um conjunto de fatores, fez-me coçar para agilizar tudo no feriado de sete de setembro: morar e trabalhar na Ilha Grande – RJ.
Com 193 km², pertencente ao município de Angra dos Reis, a Ilha Grande é um paraíso com mais de 100 praias, contornadas por um mar límpido e transparente, ideal para a prática de mergulho e ecoturismo. Mais de 90% de sua área interna é coberta por extensa Mata Atlântica, com elevados morros, longe de estradas e automóveis.
Conheço a ilha faz quase cinco anos. Lá, tive minha única experiência como garçom trabalhando numa creperia bacana (quem disse que dá para sobreviver fazendo jornalismo). Do lado continental, o mar sem ondas fornece condições de desembarque para vários povoados, sendo a vila do Abraão a mais urbanizada, com comércio crescente e boa estrutura turística. Do lado oceânico, praias selvagens e quase desertas despertam a atenção dos viajantes e trilheiros por apresentarem enseadas de rara beleza.
Atualmente, a Ilha Grande está passando por mudanças de comportamento, na tentativa de evitar que o crescimento desordenado prejudique o meio ambiente, propondo novos planos de carga e regulamentando situações fora-da-lei. As medidas tendem a ser polêmicas, pois envolvem interesses de vários setores preocupados mais em lucrar com a ilha do que preservar a natureza.
Neste contexto que atinge comunidade e turistas, pensei em abrir um jornal quinzenal, de distribuição gratuita, que teria a principal missão debater a prática de um turismo sustentável e informar o que a ilha tem de melhor em seus quatro cantos. A sacada ficaria por conta da distribuição, nas barcas para ilha, atingindo boa parte dos visitantes que chegam ao paraíso. Estive no Abraão na temporada retrasada e notei uma grande prosperidade comparada anos passados. Teoricamente, não seria difícil dividir o custo do projeto com os anunciantes locais.
Sete de setembro parti junto com uma animada excursão de Curitiba direto para a ilha. Um dos motivos para agilizar esse trampo no feriado era a presença de uma amiga carioca, com a qual acabei desfazendo a ilusão de uma antiga paixão de verão. Tinha em mente a imagem estática de um momento sublime quando se conhecemos, enaltecido ainda mais pelos efeitos do álcool, para não dizer outra coisa. O tempo passou, a vida correu de forma intensa separadamente, e depois de quase meio ano sem se cruzarmos, é natural que as coisas estivessem distorcidas. E estava.
Deixei de lado a pieguice para me envolver com a galera de Curita, que dominava o Abraão tomando todas, tocando pagode nas ruas e curtindo bastante. Além do nosso ônibus, havia mais três de outra agência, também de Curitiba. A nativada nunca viu tanta loirinha na Ilha Grande!
Os planos de trabalhar na ilha começaram a esfriar quando conheci a figura de Nelson Palma, responsável pelo jornal O Eco, de circulação mensal, tiragem pequena, voltado à comunidade e afastado dos turistas. Apesar de tosco e visualmente muito ruim, o jornal tinha um caráter ideológico muito importante na luta pela preservação da Ilha Grande e oposição ao governo de Angra. Já são sete anos de atividade, sempre custeado pelo bolso do seu Palma. “No Brasil o turismo está acabando. Com o dólar baixo e a falta de políticas públicas, nunca vimos uma época tão fraca que nem essa”, explica.
De fato, a ilha tem duas épocas distintas: a baixa e alta temporada. Na baixa, muita coisa fecha e o local fica praticamente deserto. Depende basicamente da vinda de estrangeiros, pois o brasileiro se limita a vir nas férias e feriados prolongados. Para espantar a crise, o comércio se segura como pode nessa época. No caso de um jornal, não se pode abrir e fechar de acordo com o movimento dos turistas, pois precisa da credibilidade e consistência para existir.
Apesar das boas intenções, fiquei com medo de investir o que não tenho na ilha. Além do custo de vida alto, o futuro da região ainda é incerto. Não sabem se a ilha deve se transformar num paraíso elitista como Fernando de Noronha, ou ser vendida a condomínios luxuosos como em Ilha Bela, ou apenas ter o controle de acesso regulamentado, com leis mais rigorosas para o visitante, como na Ilha do Cardoso. Na dúvida, prefiro visitar o paraíso de vez em quando, enquanto continuo a viver neste purgatório de devaneios.
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Escrito por Jeferson Jess às 13h58
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