Poeta, ator, dramaturgo, diretor, músico, porra-loca. Conheci o trabalho do londrinense Mário Bortolotto num recital de poesias junto com outros artistas marginais de renome, perdido num bar de garagem em Curitiba. Já faz uns dois anos. Naquele rodízio de manifestos, Bortolotto chamou atenção pela incrível presença de palco, interpretando com maestria seus textos corrosivos, urbanos e perturbadores.
Recentemente descobri o blog pessoal do cidadão. Na primeira visita, seu último post divulgava a peça Kerouac, avisando ser a derradeira apresentação da temporada em São Paulo. Depois, a peça seguiria para Curitiba, junto com a angustiante Homens, Santos e Desertores. Aproveitei para conferir as duas.
Denso e revelador, H.S.D. joga na cara do espectador o inferno do mundo contemporâneo em que vivemos. A história se passa entre dois personagens um tanto comum: um garoto que deve ter seus quinze anos e um homem recluso de meia-idade que vive em meio a pilhas de livros velhos. Além de perturbado pelo pai ausente e pela mãe prostituta, o menino está começando a descobrir que seu sentimento de inadequação é algo mais profundo e perigoso do que uma mera revolta adolescente.
“Vivemos numa sociedade onde a indiferença é confundida como loucura”, proclama por duas vezes Bortolotto. Durante a peça, situações desajustadas, bizarras, mas verdadeiramente humanas, surgem em conflito com esse mundo impiedoso e sem saída. Um tapa na cara para quem ainda se apaixona pela garota mais gostosa do colégio. Por fim, valores como maturidade, revolta, egoísmo, solidão, desistência, perdão e conceito de santidade desabam de uma vez só no palco, deixando todo mundo atordoado, fazendo chorar aqueles que esperavam por um final feliz.
Na semana seguinte, a expectativa para Kerouac era grande. Afinal, o nome do principal escritor da geração beatnik estava em jogo. Não são poucos aqueles que pegam caronas por aí influenciados pelo clássico “On the Road”.Mas a peça mostrava um Kerouac em final de carreira, decadente, alcoólatra, exilado em sua casa, tendo que cuidar da mãe doente. Longe daquela energia juvenil apaixonante no livro, o monólogo começa com um chute no saco do espectador viajante: “Carona é uma merda!”, revela Jack.
A narrativa compulsiva e rápida não mede palavras para expressar toda a desilusão de autor perante sua geração. Sobra até para o idolatrado “veadinho do Ginsberg”. No fundo, vemos um Kerouac fiel e compromissado com seus sentimentos, angústias, vontades e princípios. Assim como H.S.D, a santidade é posta em cena, já que Kerouac sempre foi um católico convicto. Como diria o próprio Bortolotto, "o cara que implantou o coração na máquina de escrever". Um texto triste, mas com um final intenso e emocionante, digno de sua obra.
Obs: Para a galera de Curitiba, Kerouac estará em cartaz até domingo (26/11) no Teatro Mini-Guaíra.
Sábado, 18/02. Quando acordei, Raíssa já tinha saído. Ela não conseguira dispensa no trampo e para não ficar trabalhando até tarde, foi cedo para o shopping adiantar o serviço. Eu dormia na sala, num sofazinho torto, dando a impressão que poderia cair a qualquer momento no chão. Tomei café com Dona Suzy, mãe de Raíssa. No cardápio caseiro, pão velho com margarina barata. Era uma família pobre. Apesar da boa localização, o prédio onde moravam estava decadente. Paredes sujas, móveis velhos e ar carregado de mofo. No banheiro, uma antiga banheira servia como depósito da casa.
Dona Suzy é evangélica. Largou tudo na juventude para ser missionária de Deus. Viajou bastante pregando a religião, mas sempre como voluntária. Nunca teve dinheiro pra nada. Trabalhou um tempo como professora, mas descobriu que não gostava muito de criancinhas. Agora procura emprego em outra área. Quer começar do zero.
Quem sustenta a casa é a Raíssa. Por isso, tem a regalia de dormir num quarto só seu. No outro quarto dormiam a mãe junto com a filha mais nova e a prima. Num curto papo que tive com a dona Suzy, causei boa impressão. Ela achava que o jornalismo era uma profissão glamourosa, de pessoas sérias e corretas, insinuando eu ser uma boa amizade para Raíssa, que poderia mostrar um caminho mais seguro em sua vida. Não quis discutir e acabei concordando...
Meio-dia fui até a Saens Pena e peguei o metrô pra Copa. Desta vez estava mais adequado para a cotidiana guerra carioca. Regata, chinelão, mochilinha pára-quedas, câmera fotográfica obrigatória e pouco dinheiro. Desci do metrô e tudo estava diferente. Muita gente circulando, vendedores de todos os tipos, barraquinhas de comida e bebidas, trombadinhas, bêbados, o caos.
Fui até a praia, mais uma vez acompanhado pelo sol forte. Na frente do palco, quer dizer, da barreira atrás da área vip, um grupo considerado de fãs da banda já se aglomerava. Mais de 20.000 ônibus de excursões de todo o país haviam chegado pela manhã. Os ônibus ficaram no aterro do Flamengo, alguns quilômetros de caminhada até Copa. Era uma multidão de gente, querendo um lugar na sombra para poder descansar. A cada brisa que soprava, vinha uma forte maré de maconha pelo ar. No chão, bebidas de todos os tipos. Xiboquinha era o goró oficial do evento. Uma galera passava mal, vomitando nas próprias pernas ou desmaiando por causa do sufocante calor.
Neste dia a Av. Atlântida estava bloqueada. Esquema parecido com o do Reveillon. Único que vi furando a barreira foi o caminhão-pipa da prefeitura. Encostou perto da muvuca e mandou água na galera. Esquivei-me do potente jato e subi em cima do caminhão, descarregando várias fotos da multidão. Atrás de mim vieram mais três fotógrafos. Lá em baixo um rapaz histérico gritava para tirar uma foto dele: “Euu!! Aqui!!!!” Faltou só segurar um cartaz dizendo “Filma eu Galvão”. O tio da prefeitura achou que a conversa era com ele e mirou a mangueira no rapaz, entupindo o cara de água até cair no chão atordoado. (continua pt.7)
Atenção! Se repararem no canto superior esquerdo do blog, verão que já está funcionando o link de uma nova ferramenta interativa para os leitores. Trata-se de um fórum, mais um passo da Expedição para a popularização da carona em nossa sociedade.
Está pensando em viajar de carona? Está cheio de dúvidas quanto à segurança, gastos, roteiros, roubadas? Não se acanhe e coloque sua pergunta no Fórum da Expedição!
Além do editor deste blog tentar responder, qualquer outra pessoa pode dar sua contribuição, aumentando a diversidade de conhecimentos e opiniões. Se já encarou uma aventura no dedão, aproveite para contar sua experiência lá. Tem dicas exclusivas para pegar uma carona? Compartilhe suas técnicas. Seja solidário. Participe desta idéia.
Este blog em breve estará completando 10.000 acessos, de pessoas muitas vezes interessadas em viajar, buscando formas econômicas e alternativas de transporte, querendo promover o humanismo entre comunidades. Como presente, o fórum é de vocês. É livre qualquer manifestação relacionada a cultura backpacker, prática de carona e afins. Aproveite esta chance. Vamos fazer este blog um ponto de encontro de caroneiros, aventureiros e simpatizantes de todos os cantos do país.
Um dia antes dos Stones no Rio, até o Serguei deu as caras
Nas areias de Copacabana, a descontração tomava conta. Várias bandas covers dos Rolling Stones marcavam presença, tentando de alguma forma aparecer junto à mídia. De repente, duas repórteres atravessaram a Atlântida correndo, quando despontava o inconfundível Serguei, eterno namorado de Janis Joplin. Aproveitei a mudança de foco para alcançar a barreira que separaria o povão da área vip. Distante a 100 metros do local do show, seria difícil ver alguma coisa dali.
Cuidando da grade, dois neguinhos do morro trabalhavam na segurança da montagem do enorme palco. Eu já estava sem camisa, tomando uma cerveja, totalmente envolvido com a situação, trocando diversas idéias com a galera ao meu lado. Falei que era jornalista e precisava ir até a beira do palco, fazer umas fotos. Os dois tiraram uma de malandro.
- Ó cara, posso conseguir uma credencial para você entrar aqui. Mas vai depender de quanto é o agrado...
Dei risada dos moleques e falei para mostrar a porra da credencial.
- Não posso pegar agora... se quiser mesmo bater uma fotos, tem que ajudar a gente...
Recusei o serviço falando na gíria deles e tomei um gole de cerveja. Os dois usavam uma camiseta preta da segurança do evento. Estavam tostando ali no sol, ganhando uma mixaria e sem poder beber em serviço. Notei que estavam putos com isso. De repente chega um maluco assustado, do lado de fora, pensando que eu era gringo:
- Você é brasileiro? – disse o cara, que se chamava Jessé.
- Não, sou polonês – falei na lata brincando.
- Mas você fala português?
Que idiota pensei comigo. Depois do mal entendido, expliquei quem realmente era, meu serviço e minhas pretensões.
- Ah.. legal cara, pela manhã consegui ir até a boca do palco! Entrei junto com uns ingleses, dando uma de tradutor. Por isso perguntei se era gringo. – justificou.
- Você acha que com essa minha cara posso entrar na boa?
- Pode sim. Fazemos o seguinte. A gente passa pelo canto daquela grade. Se alguém nos barrar, digo que você é estrangeiro e não sabia de nada.
Lá fomos nós. Pendurei minha máquina fotográfica no pescoço, fiz pose de jornalista gringo e fomos entrando sem maiores problemas. Chegamos bem na frente do palco. Era imenso, uma estrutura nunca vista antes. A produção corria para ajustar os equipamentos. Não demorou muito para um negão chegar berrando:
- Cadê a autorização de vocês para ficarem aqui!
- Sorry? – respondi
Em vez de sermos expulsos a pontapés, o cara se conteve e apenas nos mandou voltar pelo mesmo caminho. Conversando com Jessé, descobri que ele era baterista da banda Whitesnake Cover de São Paulo, tocando diversas vezes em Curitiba. Despedi-me daquela conversa e passei o resto da tarde circulando pela praia, batendo fotos e curtindo a brisa carioca. Sentia-me a vontade na cidade, como se já tivesse morado ali um tempo. Comi alguma coisa e fui buscar a Raíssa no shopping. Amanhã seria o grande dia... (continua pt.6)
Objetivo da Expedição
Contornar todo o litoral da América Latina utilizando apenas a carona! Uma aventura que vai promover a prática deste transporte alternativo e resgatar o humanismo entre as pessoas.
Próxima etapa
Data ainda indefinida (depende de apoios e parcerias). Saída de Curitiba, contornando todo o cone sul até alcançar a cidade de Santiago, no Chile.