Estrada da vida

Acampar nas montanhas do sul exige um certo planejamento. Para quem vem do litoral, carregando apenas bermudas e um lençol para se cobrir, pode ser surpreendido pelas friacas da região e passar muito, mas muito frio. Quando saí de Cambará em direção a serra catarinense, de carona com o pessoal de Curitiba, estava preocupado com o histórico da cidade de Urubici. Lá foi registrada a temperatura mais gelada do país, -17 graus celsius, no inverno de 1996. O local seria ponto de partida para conhecer a Morro do Corvo Branco, voltando depois pela Serra do Rio do Rastro. Mas a previsão do tempo não era boa.
Desembarquei no maldito vilarejo de Painel, perto de Lages, interior de Santa Catarina. Lugar deprimente, onde ninguém trabalhava, sem sinal de celular, sem trânsito e carona para Urubici. As nuvens escuras começavam a tomar conta do céu, um sinal para desistir e fazer meia volta. Consegui seguir até Lajes de carona com o carro da polícia local, escutando histórias tristes de jornalismo, já que o motorista tinha uma filha formada na área ganhando uma miséria no jornalzinho da cidade. Do centro, caminhei até um ponto tradicional de carona, na saída de Lajes em direção a Curitiba. Não era o único naquela situação.
Junto comigo estava um senhor de meia idade, meio trôpego, roupa surrada e desbotada. Parecia um bêbado legítimo, esperando uma carona para voltar pra casa depois de um dia de farra com os amigos. Mais a frente, uma mulher também tentava a sorte, expondo sua barriguinha branca decuidada, com um piercing bem sem vergonha. Fazia gestos lascivos para quem passava, tentando carona a qualquer custo. Logo que cheguei, desembarcou mais uma figurinha de estrada. Um policial fardado, indo direto pro acostamento. São os personagens mais comuns que encontro na hora de viajar. Mas foi a primeira vez que vejo todos eles juntos: jornalista – puta – bêbado – polícia. Quem seria o pior de todos? Quem conseguiria carona primeiro?
Eu era um forasteiro da região. Tinha acabado de almoçar, por isso estava sem pressa. Queria mesmo observar a ação dessas pessoas bizarras, seus métodos, truques para sair do lugar. O policial, último a chegar foi o primeiro a abandonar o grupo. Um carro encostou sem ele fazer qualquer sinal e levou o gambé embora. Partiram sorrindo e levantando poeira, talvez fossem amigos de longa data. Puxei um papo com o bêbado. Parecia assustado e cansado. Estava há horas ali. Às vezes o cara se embrenhava no mato do terreno ao lado e voltava minutos depois. Caganeira na certa. Vendo que a minha presença estava atrapalhando sua carona, se afastou ficando entre mim e a puta lá na frente.
Vinte minutos de espera. Lá de longe vejo um caminhão pequeno contornando a rótula, dando sinal de luz para a mulher libertina. A desgraça parou bem na minha frente. A mina saiu correndo, fazendo balançar aquele piercing escroto grudado na sua pelanca. Eram dois caminhoneiros na cabine, bem brutamontes, todos carregando uma risadinha sacana. Um deles desceu e mandou a mulher ir pro meio da dupla. O cara olhou pra mim e falou em voz alta: “Hoje vou me dar bem.. haha!!” E saíram em disparada na contramão da camaradagem. Que merda pensei.. Brasil tá fudido mesmo.. Logo depois começou a chover forte. Despedi-me do tio da ressaca e cai fora daquela zona. Voltei para o centro, perdido num mundo mais perdido ainda sem saber qual seria meu próximo passo nessa viagem estranha pela estrada da vida.
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Escrito por Jeferson Jess às 14h13
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Paredões do Sul

Canyon do Fortaleza
Canyons profundos com até 900 metros de altura,
cachoeiras gigantes entre corredores de pedras, clima ameno no verão e neve no
inverno. Essa é a configuração encontrada na serra que divide os estados de
Santa Catarina e Rio Grande do Sul, região delimitada por dois parques
nacionais, protegendo paisagens espetaculares que já serviram de cenário para
diversas novelas e mini-séries da televisão. A mais famosa delas, A Casa das
Sete Mulheres (Rede Globo), alavancou bastante o turismo, alterando a rotina das
duas cidadezinhas próximas aos parques: Praia Grande – SC, localizada no pé da
serra e Cambará do Sul – RS, no alto do planalto, principal ponto de partida
para o topo dos canyons.
O viajante independente deve estar se perguntando.
Como conhecer de carona essa região de atrações tão distantes uma das outras,
com acesso quase sempre precário por estradas de chão esburacadas? Se quiser
relaxar e gastar um pouco mais a opção mais cômoda é fazer os passeios com as
agências de turismo, que cobram o translado + guia na faixa de 30 reais cada
parque. A opção mais econômica e indicada é procurar saber nas pousadas e nas
próprias agências quem vai de carro próprio até os paredões e depois tentar se
escalar para ir junto. Foi dessa maneira que consegui visitar os dois principais
canyons partindo de Cambará: Itaimbezinho, no Parque Nacional de Aparados da
Serra e o Fortaleza, dentro do Parque da Serra Geral.

Canyon do Itaimbezinho
De carona com o agrônomo Miguel e sua esposa, que
viajavam de férias desde o Mato Grosso numa caminhonete cabine dupla, alcancei o
Fortaleza com o tempo encoberto no seu cume, mas com bom visual a partir da
cachoeira do Tigre Preto, de 200 metros de altura. Nos dias de pouca
nebulosidade é possível avistar os prédios da praia gaúcha de Torres. A melhor
visibilidade é no inverno, quando o clima frio evita que a massa de ar quente do
litoral condense ao se chocar com o ar mais fresco no alto dos
paredões.
No dia seguinte, foi a vez do canyon Itaimbezinho,
agora de carona com os curitibanos Edílson e a filha Amanda, num Honda Civic bem
equipado. Ao contrário da Serra Geral, o Parque dos Aparados já oferece uma boa
estrutura ao visitante, com restaurante, trilhas autoguiadas, sinalização e
mirantes. Paga-se R$ 6 por pessoa, aberto apenas de quarta a domingo. Nesse
canyon é possível também fazer a trilha por baixo da serra, chamada Rio do Boi,
trekking indicado a pessoas experientes, com acesso pela cidade de Praia Grande.
Visual de tirar o fôlego!

Cachoeira - Pousada
Corucacas
Há dezenas de outros paredões com as mais incríveis
vistas pela região. Na maioria dos pontos é necessária uma autorização do Ibama
para visitação ou a presença obrigatória de um guia local. Lembre-se que o clima
na serra é sempre muito instável, inviabilizando muitos passeios por dias. Não
ultrapasse seus limites. Respeite a natureza!
Serviço:
Pousada / Camping
Corucacas
RS 020, km 01 – Cambará do Sul –
RS
Fone: (54) 3251-1123
corucacas@yahoo.com.br
N´Ativa
Ecoturismo
Av. Getúlio Vargas, 1282 – Cambará do Sul –
RS
Fone: (54) 3251-1013
www.nativaecoturismo.com.br
Escrito por Jeferson Jess às 14h18
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