Travessia da Joatinga - Condomínio Laranjeiras

Foto antiga do condomínio (2003) - Divulgação
Tomando uma cerveja no breu de Camburi, consegui acertar com Seu Dick, dono do boteco, uma carona para o dia seguinte, bem cedo, até a BR-101. Às 6h00 da manhã já estava de pé com a barraca desmontada, pronto para começar o objetivo do dia: alcançar a Praia do Sono. Da rodovia parti de bonde até o trevo de Trindade, onde também fica um posto da Polícia Rodoviária. De lá, não demorou muito para um caminhão encostar e me levar até a praia de Laranjeiras, reservada ao condomínio de mesmo nome, abrigo de verão para poucos milionários, um dos mais cobiçados do país. Lá, as famílias Ermírio de Moraes, Maluf, Setúbal e Camargo estão entre os 125 felizes residentes. Mas para conhecer esse paraíso de magnatas, não basta ser qualquer mortal. Um batalhão de 500 pessoas trabalha na manutenção e segurança do local. A estrada de acesso é controlada por guaritas e também por várias câmeras de segurança ao longo dela, que rasga um dos trechos mais preservados de Mata Atlântica do país. Lá dentro, acesso apenas para proprietários ou convidados, cujos nomes e tempo de permanência devem ser antecipados em detalhes.

Residência básica. Crédito da foto: brufornazari
Claro que todo esse cenário intocável aguçou minha curiosidade. Pulei fora do caminhão que pertencia a uma empresa de jardinagem instalada ao lado do condomínio e fui tentar entrar na fortaleza. Experimentei o velho carteiraço, dizendo que precisava fazer apenas algumas fotos para uma revista e tal, mas minha mochila suja denunciava que estava ali para fazer a trilha do Sono. A única alternativa levantada era subir toda a estrada até a primeira guarita e pegar uma trilha perigosa de 1h30 até uma das praias do condomínio. Mesmo assim, estaria preso num canto reservado a surfistas, sem poder circular dentro do local. Conversando com a comunidade que trabalha e mora ali perto, soube que um rapaz acabou morrendo meses atrás ao cair de um precipício enquanto fazia a trilha para a praia. Agora o condomínio está sendo processado por causa das barreiras que impõem para quem queira conhecer suas belezas naturais privatizadas, causando tragédias como esta.

Praia de Laranjeiras. Crédito da foto: brufornazari
Quem decidir ir para a praia do Sono de barco, vai sentir um gostinho de ter conhecido parte da área restrita. O embarque é feito numa das praias particulares. A segurança do condomínio pega os visitantes em uma Kombi com vidros fechados na entrada da portaria e larga a galera dentro do barco pronto para sair. Não dá nem tempo de olhar para o lado. Já a comunidade que mora em volta, depois de muita luta, conseguiu o direito de freqüentar as praias de Laranjeiras, desde que as pessoas estejam devidamente cadastradas, podendo até levar algum amigo familiar avisando a segurança com antecedência. É a aí que a Expedição tentou entrar na onda. Na padaria, bati um papo com uma mocinha nativa que prometeu me ajudar a entrar no condomínio. O tio dela trabalhava na portaria. Bastava ligar e deixar meu nome com ele que entraria junto com ela, fingindo ser um primo distante. Mas naquele dia o cara estava de folga e só voltaria ao trabalho depois do almoço. Como ainda era muito cedo, não podia esperar. O sol já estava forte e a caminhada para o Sono seria comprometida. Então me joguei na trilha, prometendo para mim mesmo que voltaria algum dia ali para desvendar o outro lado das cercas da elite brasileira.
PS: Para você ter idéia de como é o naipe das casas que existem no condomínio, confira as fotos de uma delas aqui, construída pelo premiado arquiteto Marcio Kogan.
Escrito por Jeferson Jess às 14h28
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