Cuidado com fundos de investimento peçonhentos

Quando pensamos em namorar alguém, encaramos a arte de amar como um fundo de investimento. A gente trabalha duro juntando as economias para depois ir lá, depositar as reservas numa confiança cega, pois estamos apaixonados pelo novo negócio que promete uma série de benefícios e um crescimento promissor dos seus valores a longo prazo. Imagine se de uma hora para outra você descobre que aquele banco fechou e seu fundo de investimento desapareceu, ou pior, está lá para dizer apenas “não sei” sobre seu dinheiro. Triste sentimento. São meses de muito sacrifício e prejuízo que pedem por uma explicação, por mais revoltante que seja. Nessa hora, o jornalismo investigativo da alma entra na história, tentando traçar um perfil de quem usou seu coração, ou melhor, seu tempo e seu dinheiro.
Por trás do balcão está uma morena, linda, sozinha, séria, comportada. Modelo ideal para apostas arriscadas, sem se preocupar com o sobe e desce da Bolsa de Valores. Mas o símbolo da empresa que ela comandava era o Escorpião e, por influência deste animal peçonhento, estavam traçadas a missão e os valores da empresa bem na sua testa. Quando conhecemos um Escorpião, ficamos um pouco assustados. Um arrepio leve corre-nos pela espinha. Afastamo-nos lentamente. Talvez sejam aqueles olhos de Escorpião fundos e penetrantes, ou talvez aquele exterior frio e reservado que utilizam tão bem. O que quer que seja, não queremos se meter com um deles, da certeza que perderemos dolorosamente. O magnetismo do Escorpião é majestoso e poderoso. Eles alcançam o seu objetivo e utilizam quaisquer meios para consegui-lo. São astutos e enganadores. É necessário ter cuidado com o que dizemos, porque se os ofendermos, eles usarão isso mais tarde para se vingarem. Gostam de ver os outros sofrerem, pois se sentem assim mais poderosos.
Eu não era nenhum novato na arte de investir. Encarava a prática como um hobbie saudável e que me dava bons lucros de vez em quando. Bem mais emocionante que jogar no bingo ou na loteria. Ali você podia controlar todos os passos da relação, desde que mantivesse o olho bem aberto para não ser surpreendido... As entrelinhas daquele Escorpião não me enganavam. Sabia que era preciso ter muito cuidado para não cair numa armadilha e ser picado. Mas o lucro era alto e a linda morena parecia não oferecer perigo algum. Seus 18 anos denunciavam que ela não entendia nada sobre o mercado. Precisava mesmo de alguém que ensinasse os caminhos do capitalismo. Doce veneno.
Não resisti ao flerte da oferta e apostei minhas fichas nela. Logo percebi seus interesses no jogo, um pouco inocentes e até honestos: impressionar a concorrência, ter sua primeira experiência profunda com investimentos mais reservados, elevar seu status na festa de aniversário da empresa. Enfim, logo fui perdendo um pouco o controle da grana que botava lá. Estava fascinado com aquele negócio. Era uma espécie de porto seguro, um lugar calmo e familiar que destoava da agitação do mundo financeiro. Ta certo que recebia pouquíssimos agrados e reconhecimento, mas não importava, estava confiante no futuro dos meus valores. Mas a jovem morena mudou de tom repentinamente. Alguns conflitos com sócios da empresa, muitos da família dela, fizeram com que ela repensasse a forma de agir a partir de então. Seus objetivos iniciais já tinham sido cumpridos, o que facilitou para ela decretar o fim daquela aplicação financeira, sem dar a mínima para quem estava envolvida nela.
Sua indiferença na hora de dar a notícia para seu maior credor era de uma insensibilidade chocante. Não havia quaisquer resquícios de um bom relacionamento, nem amizade, nem nada. Parecia ter vindo uma ordem máxima da diretoria, onde era proibida qualquer manifestação de sentimentalismo. Para piorar, tentou me enganar com a desculpa que eu teria pressionado-a por melhores rendimentos, coisa que para a cruel morena era inadmissível naquele tipo de negocio. Um grande teatro, que confirmou a vocação de atriz da mocinha, sem eu ter levado muita fé quando ela me contou sobre suas habilidades. No final daquele pastelão, já conformado com minhas perdas, entrei em cena fazendo persona de vilão, como se realmente tivesse culpa no cartório, para ver até onde ia a cara de pau da protagonista. Ela espertamente percebeu a jogada e me aplicou um fatality perverso, prometendo que iria me dar uma chance para reconquistar minhas perdas. No dia seguinte, cinicamente, me pediu desculpas e desapareceu com toda a fortuna arrecadada para algum paraíso fiscal. Atualmente a malvada morena mantém um escritório escondido num empório da cidade, atendendo sempre às quartas-feiras à noite. Até agora não há relatos de novas vítimas.
Escrito por Jeferson Jess às 10h12
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