Chegando em Pouso da Cajaíba

“Olha lá os pássaros!”, aclama um cidadão chapado na proa. Na barca pra Cajaíba, os efeitos da maresia alteravam expressões e sentidos. Nosso comandante, ex-viciado, sentia o cheiro do passado no ar. Agora, era o álcool que lhe fazia companhia. Abaixo das gaivotas, golfinhos convidavam-nos para um mergulho no mar transparente. Um show de barrigadas. E quem disse que subir no barco era fácil?
Chegar em Pouso da Cajaíba é como entrar num paraíso remoto. Longe de estradas, automóveis, televisão e Internet, nem a luz de fato existia por lá. A comunidade se virava com placas de energia solar e geradores a óleo. Era dramático acompanhar a dificuldade dos bares da praia em conseguir gelo. Toda manhã encostava um navio pirata, com gelo contrabandeado de Paraty, vendido a preço de ouro. O valor era repassado na latinha de cerveja, que não saia por menos de R$ 3,00.

A região da baia da Cajaíba, pertence à área de proteção ambiental do Cairuçu e apresenta uma magnífica beleza natural com inúmeras praias desertas ou pouco habitadas, separadas por montanhas cobertas pela Mata Atlântica com inúmeros mirantes naturais e generosas cachoeiras. Até pela proximidade geográfica, há uma semelhança muito grande com as praias da Ilha Grande, mas sem a devastação imobiliária e invasão de forasteiros que atualmente impera na ilha.
Por enquanto, a praia de Pouso continua sendo uma típica comunidade caiçara, abrigo seguro de barqueiros que saem em alto mar. Já os visitantes que vêem e não voltam, tentam implantar uma cultura de conscientização importante no vilarejo, tanto ecológica como pessoal, através de ações que levem ao questionamento de hábitos e valores do ser humano, buscando sempre a melhoria da qualidade de vida. O reflexo disso é o perfil de quem visita o local, uma galera jovem e bonita em harmonia com a natureza e com o próximo.
Escrito por Jeferson Jess às 18h53
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Travessia da Joatinga - Dando a volta por Paraty-Mirim

Surfetes de Curitiba contemplando o visual do Sono
Os altos morros ao redor da Ponta Negra não deixam dúvidas. Para alcançar a praia de Martim de Sá são necessárias 5 horas de caminhada, com a maior parte do tempo subindo ladeiras, uma missão impossível para meu tornozelo estourado. A única solução deslumbrada seria voltar para Laranjeiras e seguir pela estrada até Paraty-Mirim, onde pegaria um barco direto para Pouso da Cajaíba. De lá, faria minha base para conhecer todas as trilhas, inclusive para Martim de Sá.
No retorno da trilha, ao cruzar a praia deserta de Antigos, avistei duas garotas deitadas debaixo de uma árvore, ao lado do riacho que desemboca na praia. Parecia uma alucinação encontrar elas ali, no meio daquele lugar desabitado, ainda mais fazendo topless sem nenhuma preocupação. Aproximei-me como quem não tivesse visto nada, pedindo licença para pegar um pouco de água no riacho. Elas se vestiram e me perguntaram se a água ali era boa para beber. Falei com propriedade, quase como um nativo da região, garantindo que a água era puríssima. Então mergulhamos juntos num pequeno poço, com a impressão de que já se conhecíamos antes. De fato, era uma daquelas coincidências da vida que ninguém explica. As meninas também moravam em Curitiba, uma delas na rua de casa. Estavam curtindo uma surf trip de férias por vários picos do litoral até a Bahia.

Partindo para Paraty-Mirim numa carona inédita de ambulância
Depois de um tempo conversando, voltamos juntos pela trilha até a praia do Sono. Já era fim de tarde. Como elas tinham deixado o carro em Trindade, optaram por continuar a pernada e seguir viagem. Acabei ficando mais uma noite no Sono, para no dia seguinte partir cedo até Paraty-Mirim. A estratégia valeu a pena. Logo na primeira investida na beira da rodovia fui premiado com uma carona inédita numa ambulância adaptada, usada apenas para transportar remédios e mantimentos. Seguindo pela estrada de terra até Paraty-Mirim, atravessamos um reserva indígena da tribo Guarani, até pararmos para acolher uma bela índia que fizera sinal de carona. O motorista parecia já conhecer a mocinha e fez questão que ela sentasse ao seu lado. Para não perder a barbada, me joguei na parte de trás da ambulância, como se fosse um corpo ferido precisando de resgate, pronto para ser internado nas paradisíacas praias de Cajaíba.
Escrito por Jeferson Jess às 17h08
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